Eurocopa 2012: O Legado na Ucrânia

Em 2017, são completados cinco anos desde que a maior competição regional de seleções do planeta voltava ao leste europeu. Polônia e Ucrânia dividiam a sede da Eurocopa e tinham a responsabilidade de fazer daquela, a melhor edição da história do torneio. Como todo campeonato recente, seja ela da Eurocopa ou Copa do Mundo, a candidatura e escolha da sede vem acompanhada de diversas críticas e questionamentos sobre a real necessidade da realização do evento no país, ou no caso, nos países. Em 1976, a então Iugoslávia recebia a mesma competição, porém, com um número reduzido de times, apenas duas cidades sede e nenhum padrão de reforma ou construção de estádios. Basicamente, os custos eram mínimos, e a realização do evento era possível.

Quando o comitê da UEFA decidiu que Polônia e Ucrânia dividiriam a realização da competição, não se pensava nos fatores sociais e financeiros que poderiam abalar as sedes da mesma. Então, qual o impacto que a Eurocopa de fato levou para a Ucrânia?

DENTRO DE CAMPO

Em 2007, quando a Ucrânia foi selecionada como um dos países sede, o campeonato nacional contava com 16 equipes na primeira divisão, porém a competitividade da liga era baixa, com apenas dois ou três times brigando pelo título. Em exemplo, pegando a temporada 2006/07, o campeão foi o Dínamo de Kiev com 74 pontos somados. Na segunda colocação, veio o rival Shakhtar Donetsk com 63 pontos, seguido do Metalist Kharkiv com 61. A disparidade dessas equipes para o resto da tabela era enorme, e nesse caso, continua sendo. Desde então muita coisa mudou, mas a maioria para pior. No final de 2013, a política tomou o lugar do futebol como o centro das atenções e esquentou o gélido país do leste europeu (para entender melhor, assista o documentário produzido pela netflix, Winter’s On Fire). O confronto gerou uma guerra civil no extremo leste do país, e é claro que isso também atingiu o futebol ucraniano.

O jovem defensor Dmitri Nagiyev faz o que pode para evitar a má fase do time, porém sem sucesso. (Foto: FC Dnipro)

Hoje o campeonato conta com apenas 12 equipes. Clubes tradicionais faliram ou estão próximos de entrarem em dívidas irrecuperáveis. O Dnipro Dnipropetrovsk caiu de produção, vive uma grave crise financeira e saiu de protagonista do futebol ucraniano para a zona de rebaixamento dessa edição do campeonato nacional.  O time chegou na final da Europa League na temporada 2014/15, e acabou derrotado para o Sevilla, tradicional equipe espanhola que também é a maior campeã do torneio. Depois disso, a guerra tomou grandes proporções, e acabou atingindo também o público, principal motivo de renda do clube do leste ucraniano. Além disso, Yevhen Konoplyanka, o principal jogador da equipe, transferiu-se justamente para o Sevilla. Unindo tudo isso, a equipe foi decaindo, e nessa temporada, acabou punida com a perda de 12 pontos por uma decisão da federação ucraniana de futebol. Tal punição acabou prejudicando todo o andar do clube, que nessa temporada acabou rebaixado para a segunda divisão do país.

Outro grande clube ucraniano, o Metalist Kharkiv, teve um fim trágico e acabou fechando suas portas. O clube não aguentou a grave crise financeira nem as punições da federação ucraniana de futebol e teve de encerrar suas atividades no futebol profissional, deixando um estádio “recém construído” feito especialmente para a Euro 2012, e que agora será aproveitado pelo Shakhtar Donetsk, pelo menos até o final de 2017.

A complicações não param por aí. Quem também sofre atualmente com a falta de investimentos é a base dos times ucranianos. Kovalenko, Zinchenko, Sobol e Matvienko são nomes que podem brilhar na seleção do Leste no futuro, todos crias do Shakhtar Donetsk. Mas mesmo com um avanço recente no rendimento de jogadores da base do Shakhtar, o time ficou com o vice do Campeonato Ucraniano sub-21 dessa temporada (2016/17), bem atrás do campeão Dínamo de Kiev. O motivo do “fracasso” pode ser responsabilidade da guerra já mencionada, que impediu o clube de usar seu Centro de Treinamento (Kirsha Training Centre). Localizado no sul da cidade, o CT dos profissionais e centro de formação de jovens atletas do Shakhtar já foi considerado por muitos especialistas, o melhor do mundo.

FORA DAS QUATRO LINHAS

A economia ucraniana não é ruim, mas também está longe de ser algo maravilhoso. O fato é que, o quesito econômico do país cresceu muito após a dissolução da União Soviética, porém vem decaindo depois do início da guerra civil. Para se ter uma ideia, em 2013 a Ucrânia atingiu a melhor marca de seu PIB em todos os tempos (181 bilhões de dólares). Dois anos depois da guerra, esse número caiu para 90,62 bilhões de dólares, 50% do que obteve no ano seguinte ao da Eurocopa no país.

Em seu território, a economia é baseada na agricultura, manufatura de equipamentos e veículos para transporte agrário e produção de aço. O povo em si não tem uma renda per capita ruim, porém é bem inferior a mesma da Polônia por exemplo.

Onde quer que o Dínamo de Kiev esteja, os “ultras” estarão também. (Foto: FC Dynamo Kyiv)

Logo, o dinheiro para pagar os ingressos em jogos fica mais curto, e por isso não vemos os estádios com bons números de espectadores. Na temporada regular 2016/17, a média de público do Dínamo de Kiev, clube que possui o maior estádio do país, foi de apenas 10.033 torcedores por jogo. Esse número poderia até representar um bom público, se não levássemos em consideração o fato do NSC Olimpiyskiy ter capacidade para 70.050 pessoas e que a maioria do público dos jogos, é parte da torcida organizada do time. Em si, torcedores comuns, família e amigos, representam apenas 25% dos 10 mil anteriormente mencionados.

Já o campeão Shakhtar Donetsk levou em média 6.819 torcedores por jogo. Claro que existe a justa explicação do publico baixo por conta da distância entre sua cidade natal e seu estádio original (Donbass Arena), e os estádios nos quais jogou essa temporada (Arena Lviv e Metalist Stadium). Porém, na partida contra o Stal Kamianske, somente 641 pessoas acompanharam a vitória por 2-0 do time de Donetsk. Mesmo com o time em boa fase, a torcida não marcou presença nessa temporada que passou, e pode ser dita como a grande decepção dessa edição do Campeonato Ucraniano.

ESTÁDIOS

Continuemos no Shakhtar Donetsk. O drama do time é a perda de seu estádio após bombardeios em conflitos entre rebeldes separatistas e o governo ucraniano. Com um custo de 320 milhões de euros (que vieram exclusivamente do clube e seu dono), a Donbass Arena foi construída em três anos (de 2006 a 2009), e sediou jogos da Euro 2012, Campeonato Ucraniano, Copa da Ucrânia e Champions League por outros cinco. A ultima partida no estádio, foi a vitória por 2-0 (com dois gols do brasileiro Luiz Adriano) contra o Volyn Lutsk, na ultima rodada do Campeonato Ucraniano da temporada 2013/14. Mais tarde, naquele mesmo ano, o estádio seria então bombardeado e a equipe (junto do Metalurh e do Olimpik, ambos de Donetsk) deixariam a cidade rumo a capital Kiev, em busca de mais segurança para os jogadores e demais funcionários do clube. Em resumo, todo o investimento feito pelo Shakhtar, foi destruído junto com a cidade.

Com 240 quilômetros de distância de Donetsk, a cidade de Kharkiv abrigava o Metalist, clube que durante cerca de 4 anos, contratou muitos jogadores brasileiros (Diego Souza, Cleiton Xavier e Marlos são alguns deles). Umas das sedes da Euro a cidade, e para isso, uma reforma foi feita no Metalist Stadium, com custos baixos, foi reinaugurado em 2009. Porém, na temporada 2015/16, o clube ficou por diversos meses sem pagar os salários dos jogadores e até hoje está em débito com muitos deles. Em entrevista para a mídia esportiva ucraniana, o meia Oleksandr Noyok, hoje jogando pelo Dínamo Minsk (Bielorrússia) afirmou que “o time chegou a não ter mais água quente, dar apenas sanduíches como almoço e ter as piscinas utilizadas para tratamento muscular em completa sujeira”. Nessa temporada, o clube foi excluído de todos os campeonatos nacionais, e está jogando apenas ligas regionais e municipais amadoras. O estádio hoje é utilizado pelo Shakhtar, que como dissemos acima, que perdeu a chance de utilizar o seu devido a guerra travada em Donetsk.

Já no extremo oeste, perto das montanhas dos Cárpatos, o Karpaty Lviv era a equipe que tinha no papel, um plano de ser uma das equipes que correm por fora na briga por uma vaga para as competições europeias. Com o projeto apresentado, o governo decidiu investir na construção da Arena Lviv, que foi inaugurada em outubro de 2011, sendo a mais atrasada das obras e que causou na época, preocupação para o comitê da UEFA no que diz respeito a conclusão do planejamento para a Eurocopa. O time em média não coloca 15% de espectadores em relação a capacidade total do estádio, que é de 34.915. O crescimento do Karpaty foi um fracasso, e nessa temporada, quase caiu para a segunda divisão. De fato, o grande elefante branco da Eurocopa 2012 é essa arena, ainda mais se pensarmos que já existia um estádio na cidade, o Ukraina Stadium, com capacidade para 28.051 espectadores.

Visão interna da Arena Lviv (Foto: The Stadium Guide)

Já o NSC Olimpiyskiy Stadium é um projeto teoricamente mais barato. Foi feita apenas uma reforma no antigo Estádio Olímpico que já era a casa da Seleção Ucraniana desde 1994. O tradicional Dínamo de Kiev tinha seu modesto estádio, o Dynamo Stadium (Valeriy Lobanovskiy), com capacidade de pouco mais de 16.000 espectadores. Depois da reforma do Estádio Olímpico, havia uma necessidade de encontrar um destino para a utilização do Olimpiyskiy, já que abrigar somente jogos da Seleção Ucraniana não iria dar vida útil ao investimento feito. Com isso, o Dínamo ficou com a concessão de uso do NSC Olimpiyskiy, e todos os jogos (em casa, claro) do clube acontecem no maior estádio do país, que agora tem capacidade para mais de 70.050 pessoas. O problema desse estádio é exatamente a sua capacidade. Mesmo com o maior clube do país sediando seus jogos no gramado do Estádio Olímpico, a media de público é baixa, como já mencionamos. Porém de todos os estádios, podemos dizer que é o que tem mais utilidade atualmente, até por ser utilizado para diversos shows e eventos. Recentemente, foi a casa da Eurovision, maior festival e competição de musica do velho continente.

PROJEÇÃO PARA O FUTURO

De fato, a Ucrânia continua sendo um país com um potencial de crescimento que excede as expectativas, não só no quesito de qualidade técnica de jogadores e tática de jogo, mas também na parte organizacional e de investimento. A base ucraniana era uma das mais promissoras no cenário europeu e vinha tendo boas atuações durante os torneios juvenis, incluindo o título de 2009 da Eurocopa sub-19. Na parte organizacional, como toda nação que era integrante da União Soviética, os níveis de corrupção são alarmantes. A Federação Ucraniana de Futebol (FFU) parece ser séria, e cobra a regularidade financeira dos clubes com muito empenho, porém a má fama dos políticos do país reflete em todas as federações esportivas ucranianas.

Seleção ucraniana campeã da Eurocopa sub-19 (Foto: UEFA)

É difícil prever ao certo o que acontecerá com o futebol do país, mas o que está bem na cara é por onde começar: o fim da guerra civil. Os conflitos tiraram muito, de times em direto e de empresários que sustentavam e mantinham outros clubes. Quando os entraves da guerra civil acabarem, a reestruturação precisa ser imediata e a cobrança por resultados, paciente. Com calma, os clubes recuperarão suas casas, bases, promessas e esperança de demonstrar para o mundo, um bom futebol.

 

Posted by Giovanni Chacon

Amante do futebol em geral. Fundador do Nos Acréscimos e comentarista na Rádio Jovem Pan AM - São Paulo. Estudante do primeiro ano de jornalismo.